PARA A SOPHIA, UM CORAL HABITADO
Há muito tempo, fui contigo ver
de que lado estava o sol. Esse mar
perto da velha casa. As falésias.
O retrato feliz.
Também eu tive uma casa, onde escutar
o canto das coisas na evidência da luz.
Também eu deixei aquela praia de areais
e grandes vagas.
Agora nos teus poemas vejo crescer a luz
de um tempo inteiro. E imagino-te
Penélope ou Cassandra. Até arder a neve.
O tempo é isso: os gestos sucessivos sobre o mar.
Posso dizer-te que o teu corpo habitará
sempre no destino generoso do Verão.
Ouve-me: Trouxe do mar os frutos do regresso.
E o búzio que sobrou da madrugada.
Li teus livros sempre com perfumes e dunas
nos meus olhos.Desprevenidos.
Posso assim devolver-te à praia inicial
da tua vida. Confirmar o sol nos teus olhos
E a cor justa do Verão.
Isabel Salvado
["SALÉM", revista Poesia, dedicada a Sophia de Mello Breyner, nov 1987;
edição: Associação de Estudantes da Faculdade de Teologia]