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segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Dia de S. Valentim, fora de tempo e de lugar:)


Hino De Amor

Andava um dia
Em pequenino
Nos arredores
De Nazaré,
Em companhia
De São José,
O bom Jesus,
O Deus Menino.

Eis senão quando
Vê num silvado
Andar piando
Arrepiado
E esvoaçando
Um rouxinol,
Que uma serpente
De olhar de luz
Resplandecente
Como a do Sol,
E penetrante
Como diamante,
Tinha atraído,
Tinha encantado.

Jesus, doído
Do desgraçado
Do passarinho,
Sai do caminho,
Corre apressado,
Quebra o encanto,
Foge a serpente,
E de repente
O pobrezinho,
Salvo e contente,
Rompe num canto
Tão requebrado,
Ou antes pranto
Tão soluçado,
Tão repassado
De gratidão,
De uma alegria,
Uma expansão,
Uma veemência,
Uma expressão,
Uma cadência
Que comovia
O coração!

Jesus caminha
No seu passeio,
E a avezinha
Continuando
No seu gorjeio
Enquanto o via;
De vez em quando
Lá lhe passava
À dianteira,
E mal poisava,
Não afroixava
Nem repetia,
Que redobrava
De melodia!

Assim foi indo
E o foi seguindo.
De tal maneira,
Que noite e dia
Numa palmeira,
Que havia perto
Donde morava
Nosso Senhor
Em pequenino
(Era já certo),
Ela lá estava
A pobre ave
Cantando o hino
Terno e suave
Do seu amor
Ao Salvador!

João de Deus,

Eugénio de Andrade, Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa, pág.209

                                                                          

Um postalinho que me deu a minha sobrinha Maria:)


quarta-feira, 15 de julho de 2015

Convivência pacífica :)

Já por aqui andaram, os gatos e as pombas (alguns, serão os mesmos).
Há dias fotografei-os outra vez, em harmonioso convívio :)
                                                                              


 
 
1, 2, 3
 
Um, dois, três.
lá vai outra vez
o gato maltês
a correr atrás
da franga pedrês,
talvez a mordesse
apenas no pé,
o sítio ao certo
não sei bem qual é
(quatro, cinco, seis),
ou só lhe arranhasse
a ponta da crista,
e talvez nem isso,
seria só susto,
ou nem sequer mesmo
foi susto nenhum;
sete, oito, nove,
para dez falta um.
 
Eugénio de Andrade
Aquela nuvem e outras
Quasi Edições
 
 

domingo, 14 de junho de 2015

Canção de Leonoreta

Borboleta, borboleta,
flor do ar,
onde vais, que me não levas?
Onde vais tu, Leonoreta?

Vou ao rio, e tenho pressa,
não te ponhas no caminho.
Vou ver o jacarandá.
que já deve estar florido.

Leonoreta, Leonoreta,
que me não levas contigo.


Eugénio de Andrade
Primeiro Livro de Poesia, pág.25
Selecção de Sophia de Mello Breyner Andresen
Caminho


                                                                             
 
Ilustração de Júlio Resende
 

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Lágrima



Luar de Agosto


Lágrima

Dos olhos me cais,
redonda formosura,
Quase fruto ou lua,
cais desamparada.
Regressas à água
mais clara do dia,
obscuro alimento
de altas açucenas.
Breve arquitectura
da melancolia.
Lágrima, apenas.


Eugénio de Andrade
Retirado de os poemas da minha vida nº5
pág.86
Público