Poema
Ela acendia o lume ou cozinhava
contava as viagens que faziam
pintava nas paredes desenhava
de madrugada enquanto outros dormiam
ele lia e relia e deslumbrava
com aquela humildade comovente
de quem sabia e nunca duvidava
que a beleza entrevista é para sempre
os dois à vez citavam Vidas Secas
que dois tão meio a meio inseparáveis
dividiam os corpos e as cabeças
por causas nunca vãs nunca mudáveis
hoje que o sol é grande e o amor também
enquanto o tempo é mágoa estamos vivos
sem cura e desarmados como quem
a grilheta da morte fez cativos
Joana de Matos Martinho
Retirado do livro Feliciano Falcão, Memória Viva
Coordenação de António Ventura
Monet
