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sábado, 11 de maio de 2013

A noite inteira já não chega


A noite inteira já não chega.
Nenhum silêncio nos consola
de ver o rio por uma nesga
entre o cimento feito esmola.

Quando a cidade nos derrota
dói de saudade o verbo ir
como se o rio viesse à porta
com suas velas de partir.

E de mãos dadas não partimos
presos na margem de estar cá.

Só um no outro descobrimos
o horizonte que não há.


A Noite Inteira Já Não Chega, Rosa Lobato de Faria, pág.46
Guimarães/ Babel

                                                                             
 
 
É uma edição muito bonita, de Dezembro de 2012, que reune poesia de Rosa Lobato de Faria de 1983 a 2010.
O livro inclui ainda recepção crítica de João Conde Veiga, João Gaspar Simões e Luís Forjaz Trigueiros a Os Deuses de Pedra, 1983 e Memória do Corpo, 1992, respectivamente.
 

domingo, 14 de abril de 2013

Se Eu Morrer de Manhã


[SE EU MORRER DE MANHÃ]

Se eu morrer de manhã
abre a janela devagar
e olha com rigor o dia que não tenho.

Não me lamentes. Eu não me entristeço:
ter tido a morte é mais do que mereço
se nem conheço a noite de que venho.

Deixa entrar pela casa um pouco de ar
e um pedaço de céu
-o único que sei.

Talvez um pássaro me estenda a asa
que não saber voar
foi sempre a minha lei.

Não busques o meu hálito no espelho.
Não chames o meu nome que eu não venho
e do mistério nada te direi.

Diz que não estou se alguém bater à porta.
Deixa que eu faça o meu papel de morta
pois não estar é da morte quanto sei.


Rosa Lobato de Faria

                                            
 
Janelas Com Grades
Manuel Amado