sábado, 13 de agosto de 2011

Encerramento de Escolas

     A propósito da recente notícia de que vão fechar 297 escolas do 1º ciclo, ocorre-me contar uma pequena história.

     Há cerca de 5 anos trabalhei numa vila do distrito. Nesse ano tinha uma turma onde foram integrados 7 ou 8 alunos vindos de uma aldeia próxima, cuja escola tinha fechado. Supostamente para bem de todos, principalmente dos alunos.
Seria?

     Mais tarde a mãe de uma dessas crianças, contou-me que ela e o marido tinham optado por construir casa na aldeia e viajar, ela, todos os dias para a cidade para trabalhar. Ponderaram e concluiram que era o melhor para as duas filhas. Teriam infância e um começo de escolaridade mais tranquilo, na aldeia onde viviam, onde tinham família, onde toda a gente as conhecia, onde andavam em liberdade, onde eram felizes.
A aldeia é bonita, airosa, simpática...um local realmente aprazível para uma criança crescer.

     Quando a M., a mais velha das meninas passou para o 2º ano de escolaridade a escola foi encerrada e de certa forma o mundo daquela menina e dos seus colegas deu uma reviravolta de muitos graus e, sei eu que estava lá para ver, não foi para melhor!
     Passaram a ter que se levantar muito mais cedo, a ter que andar às voltas de autocarro, a andar "por lá" muitas horas. Passaram a almoçar na cantina.
     Há, de certeza, mais confusão, mais stress, menos conforto e menos tranquilidade nas crianças que se deslocam do seu meio habitual para outro que acaba por ser muito mais hostil. A troco de quê?

     Parece que o objectivo dos governos são os números, mais que o bem estar das crianças ou o seu sucesso escolar.
     Para haver sucesso escolar verdadeiro e não números fictícios, as turmas precisam ter menos alunos, os professores não podem estar tão sobrecarregados com burocracia e tem que haver mais pessoal auxiliar.
     Os alunos deveriam entrar para o 1º ano de escolaridade com os 6 anos feitos.

     Estatísticas, estatísticas, estatísticas!

     Desumanizou-se o ensino. E a Educação é a base de uma sociedade evoluída. Perdem-se referências sólidas, perdem-se valores...
     Mas que importa?
     Restam sempre os números!

     Acredito que algumas destas escolas devam fechar, mas 297?!


                                                                                                                                                                        

Chuva de Verão

Não se sente o vento
Não se vê a chuva
Não se cheira a terra molhada...

...mas todos estão lá...




                                                                                

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Portugal, Pontos de Fuga - Exposição

"Arte significa não saber que o mundo já existe, e fazer um."( Rainer Maria Rilke )


Lisboa Cidade de Ulisses, de José de Guimarães
                                                                              

                                                                               

Vi pela segunda vez (porque tem tanto de bom para ver, que uma vez só , não é suficiente ) a exposição Portugal Pontos de Fuga, que pode ser visitada no Antigo Edifício dos CTT, em Castelo Branco.


                                                                              

Na Agenda Cultural nº8/2011 ( da Câmara Municipal ) lê-se :  "No âmbito das comemorações oficiais do Dia de Portugal de Camões e das Comunidades Portuguesas, o Museu da Presidência da República apresenta a Exposição Portugal, Pontos de Fuga, centrada nas representações de 18 cidades portuguesas.

Convocando os artistas que as pintaram, o Museu da Presidência da República cumpre um duplo desiderato: prestar homenagem às cidades que, em cada ano, são escolhidas como cenário das comemorações oficiais do Dia de Portugal e dar a conhecer o universo criativo de grandes nomes da pintura portuguesa."

                                                                    
                          A Torre da Princesa ( Bragança ), de Graça Morais


                           Lisboa ou Saudades de Lisboa, de Júlio Pomar



Na sala do rés-do-chão podem admirar-se algumas tapeçarias de Manuel Cargaleiro, Eduardo Nery, Carlos Botelho e Arpad Szenes.



  A Cidade dos Mastros e das Caravelas, tapeçaria de Manuel Cargaleiro
Tríptico                                                                                               
                                                                          






Mouraria, tapeçaria de Maria Helena Vieira da Silva


Pormenor da tapeçaria



                            A belíssima escadaria que nos leva até ao 1º andar


                                                                               

                                                                      
                                                                            
                                                                              
Nas salas do 1º andar, a pintura de grandes  nomes portugueses do Séc.XX : Almada Negreiros, Cruzeiro Seixas, Nadir Afonso, Maria Helena Vieira da Silva, Maluda, Jorge Barradas, Abel Manta, Manuel Cargaleiro, Júlio Resende, Thomaz de Mello, Júlio Pomar ...
Uma interessante  lista de nomes que nos dá a oportunidade de ver um conjunto  riquíssimo de obras que certamente ,tão cedo, não voltaremos a ter na nossa cidade.


                                                                               



                            Castelo Branco, de Manuel Cargaleiro




                   Quem Não Viu Lisboa Não Viu Coisa Boa, de Almada Negreiros














                                       Portalegre, Nadir Afonso
                                                                                 



Lisboa Vista do Miradouro de São Pedro de Alcântara, Carlos Botelho


Project de Vitrine, Lisbonne, Maria Helena Vieira da Silva


                       Les Toits de Lisbonne, Esquisse, Maria Helena Vieira da Silva

                                                                                 



 
                                     Porta da Estrela (Guarda), Jaime Isidoro


Ria de Aveiro, Fausto Gonçalves











Coimbra, Carlos Augusto Ramos


Vista sobre Viseu, Abel Manta


Évora, Armando Alves


Coimbra Terra de Encanto, Artur Loureiro


Demolição na Cidade Universitária, Coimbra, Thomaz de Mello

                                                                                                                                                                                                                
 ...e muito, muito mais...                                                               
 A exposição estará patente ao público até dia 4 de Setembro.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O Carteiro de Pablo Neruda

Li o livro e vi o filme.
Ambos deliciosos, do que me lembro, ternos e com algum humor à mistura.



     "O telegrafista Cosme tinha dois princípios. O socialismo, a favor do qual arengava aos seus subordinados, de modo supérfluo aliás, porque todos eram simpatizantes ou activistas, e o uso do boné dos correios dentro do posto. Ainda podia tolerar a Mario essa emaranhada cabeleira que superava com raízes proletárias o corte dos Beatles, as blue jeans infectadas pelas manchas de óleo da corrente da bicicleta, o colete descolorido de jornaleiro, o seu hábito de investigar as narinas com o dedo mindinho; mas fervia-lhe o sangue quando o via chegar sem o boné."

(retirado de O Carteiro de Pablo Neruda,  pág.37, de Antonio Skármeta, numa edição do Círculo de Leitores )






Pablo Neruda poderia, talvez, quem sabe, dar este poema a Mario, para ele oferecer à sua amada Beatrice...


Ausência

Ainda há pouco te deixei,
e vais comigo, cristalina
ou trémula,
ou inquieta, ferida por mim mesmo
ou de amor, como quando os teus olhos
se fecham sobre o dom da vida
que sem descanso te entrego.

Meu amor,
encontrámo-nos
sedentos e bebemos
toda a água e sangue,
encontrámo-nos
com fome
e mordemo-nos
como morde o fogo,
deixando-nos feridos.

Mas espera por mim,
guarda-me a tua doçura.
Dar-te-ei também
uma rosa.


Poemas de amor de Pablo Neruda, pág.35
D.Quixote

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Casa das Histórias Paula Rego

    " Em 2006, Paula Rego escolheu Cascais para a construção da "sua" Casa das Histórias, um museu com projecto do arquitecto Eduardo Souto de Moura, que irá exibir um conjunto significativo da sua obra gráfica e algumas obras do marido, Victor Willing, artista e crítico de arte, falecido em 1988. "

(retirado da internet)


















Na Casa das Histórias pode ver-se a exposição Oratório

"A convite do Foundling Museum, instituição museológica que guarda a memória das crianças abandonadas e recolhidas no Foundling Hospital, Paula Rego realizou, entre 2008 e 2010, um conjunto de trabalhos expostos pela primeira vez nesse museu, entre Fevereiro e Abril de 2010.(...)

...Para tratar o tema do abandono e da vulnerabilidade infantil, a artista apropriou-se de um objecto muito comum nas grandes casas portuguesas tradicionais, um móvel-oratório, onde as famílias podem rezar na intimidade, escolhendo e distribuindo nesse móvel as imagens mais evocativas das suas afinidades religiosas particulares.(...) No oratório da artista os santos são substituídos pelas crianças e é para elas que o nosso olhar é imediatamente atraído. Vestidas com os uniformes do Foundling Hospital e em poses grotescas, alguns episódios das suas vidas são contados nos desenhos, em sucessivos estados intermédios de sofrimento, que ligam o nascimento à morte. As crianças serão afinal os santos, também elas mártires e colocadas em altares sacrificiais.(...)"

(retirado do folheto da exposição)



                       (da net)
                                                                                 

(da net)                                


                            Há ainda, o percurso expositivo, ao longo de sete salas, O corpo tem mais cotovelos.

"(...)Lentamente, a imagem toma forma. O essencial é ter uma ideia, mesmo que vaga, do que se quer fazer. Ter um enunciado que estimule o caminho ou apenas algo que se deseja dizer de uma determinada forma. Uma sugestão que é anotada rapidamente e reencontrada depois em estado constante de metamorfose, ao longo de todo o seu trabalho.(...)"

(retirado do folheto da exposição)


(da net)                                                                  
                            

(da net)                                             
                                                                              
                                                                                                                                                              
                                                                                
Gostei de ver as exposições onde há tanto para descobrir e onde sentimentos diferentes, às vezes contraditórios, nos abarcam enquanto o nosso olhar vai percorrendo cada uma das obras.