quarta-feira, 10 de junho de 2015

Serenidade

«Branda Companheira»

Branda companheira: serenidade,
leda ventura a ser no pensamento
feliz e ao mesmo tempo o adoçar
compassado: nem fugidio ou lento

da placidez. Outro bem fulgirá
maior e mais belo que aquele ameno
e sem sobressaltos encaminhar
para selar fortuna há tanto tempo

esperada? Ainda que alguns presságios
nos atropelem todos os sentidos,
uma nesga de azul p'lo ar avança

e mais alargando, em profundidade,
a sua cor pertinente, incisiva.
E em nosso peito que ternura anda?

António Salvado,
No Interior da Página
seguido de
Prosas Avulsas do Interregno, pág.16


                                                                          
 
Myra Landau
 
 

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Boa semana:)


Para começar a semana com música: Lila Downs e Jesús Navarro - Tu Carcel

                                                                              

domingo, 7 de junho de 2015

Partir


Mar e Céu
 
 
Myra Landau
 
 
O Vento Na Ilha
 
O vento é um cavalo:
ouve como ele corre
pelo mar, pelo céu.
 
Quer levar-me: escuta
como atravessa o mundo
para me levar até longe.
 
Esconde-me nos teus braços
só esta noite,
enquanto a chuva abre
contra o mar e a terra
a sua boca inumerável.
 
Escuta como o vento
chama por mim a galope
para me levar até longe.
 
A tua testa na minha testa,
a tua boca na minha boca,
os nossos corpos presos
ao amor que nos queima,
deixa que o vento passe
sem me conseguir levar.
 
Deixa que o vento corra
coroado de espuma,
que me chame e me procure
a galope na sombra,
enquanto eu, submerso
sob os teus grandes olhos,
só por esta noite
descansarei, meu amor.
 
Pablo Neruda
 
 

sábado, 6 de junho de 2015

Livros, estantes & companhia


                                                                              
 
Últimas aquisições...
Quem tem uma estante que já não quer?... :)
 
 

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Já não se fazem ladrões como antigamente...


...principalmente porque muitos têm muito mais (milhões) do que aqueles a quem roubam :(


O Ladrão
                                           
                                                                        
"O Bloco passava lá fora, "experimentando" o carnaval. Minha amiga foi atender o telefone, e ao voltar viu que sumira o relógio de pulso, deixado sôbre a mesinha de cabeceira. Abriu a gaveta e examinou a caixa de jóias: vazia. Nada de preço, mas de estimação: colar de pérolas cultivadas, anéis, broches, essas coisas. Cada peça lhe viera de uma pessoa querida, e era como se os ofertantes vivessem ali, disfarçados e condensados pelo ourives. Minha amiga ficou aborrecida. Não que participasse do horror capitalista a ladrões. Sem capital, achava exagerado êsse sentimento. Nas vêzes em que discutira o problema, opinara quase favoàvelmente aos gatunos. Coitados, não tiveram boa formação familial: a miséria é grande e espalhada, o corpo social se caracteriza pelo egoismo. Erraram, apenas. E depois, tanto ladrão gordo por aí, recebido em sociedade, incólume, benemérito!
     Por isso mesmo, sentia-se chocada com o acontecimento. Por que lhe faziam uma dessas? Pedissem qualquer coisa razoável, daria. Se não tinham coragem de pedir, se eram pobres envergonhados, que diabo, levassem objetos caseiros, sem história. É certo que ladrão não pode saber se um objeto está carregado de afetividade, e que dinheiro nenhum o compra.
     Foi ao andar de cima conferenciar com o vizinho. Êle nada percebera, mas armou-se de pistola e resolveu caçar o ladrão, que pelo visto descera do morro próximo. Sempre desconfiamos do morro, como se êsse acidente geográfico retivesse propriedades maléficas, extensíveis aos indíviduos que o habitam. Mas enfrentar o morro, àquela hora da noite, seria temeridade. Já ao transpor a porta da rua, o vizinho decidiu ficar por ali mesmo, pistola em punho, vistoriando os suspeitos que passassem, e não passaram.
     Na noite seguinte, passou foi a patrulha de Cosme e Damião, que, inteirada do fato, pensou logo em Curió.
     - Curió hoje de tarde estava querendo vender uns troços de ouro, umas correntinhas.
     - Então me tragam o Curió que eu quero conversar com êle. Mas por favor, não o maltratem, hein - pediu minha amiga.
     Curió apareceu pela manhã encalistrado, com os policiais. Pequeno, modesto, simpático. O vizinho correu para apanhar a arma. "Não faça isso - ordenou-lhe minha amiga. Vamos conversar sentados no chão, que é melhor." Cosme e Damião preferiram ficar de pé, Curió não se fêz de rogado, e o vizinho adotou o figurino.
     - Curió, foi você quem levou minhas jóias de estimação?
     De cabeça baixa, Curió admitiu que sim. Passara por ali, à hora em que o bloco descia, viu luz acesa, nenhum movimento, janela baixa, e tal, ficou tentado. Conhecia de vista a moradora, até simpatizava com ela. Mas praquê deixar tudo aberto, exposto, provocando a gente?
     Lealmente, ela aceitou a censura, reconhecendo que não cuidara.
     - Você fuma, Curió?
     - Aceito, madame.
     Cigarro ajuda a resolver. Cheio de boa vontade, Curió não podia restituir tudo. Parte dos objetos fôra vendida, os brincos ele dera a uma senhorita. O colar, o relógio e dois broches, sim, devolveria se madame não fizesse galho.
     - Estão aí com você?
     - Não, madame, mas pode fiar do meu compromisso.
     O vizinho ia exclamar: "Essa, não", porém minha amiga pediu-lhe que se abstivesse de comentários. Continuaram negociando amigàvelmente. Aquela fôra a primeira vez, Curió vive de biscates, vida apertada, madame compreende. No outro dia voltou com as jóias, menos as vendidas, e prometeu tomar os brincos à namorada. Minha amiga achou que não valia a pena magoar a môça, e louvou o desprendimento de Curió. E agora sua casa tem, numa só pessoa, encerador, bombeiro e cão de guarda, procurados há muito. O vizinho é que, indignado, e dizendo-se sem garantias, pensa em mudar-se."
                               
1958

Carlos Drummond de Andrade, A Bôlsa & A Vida, pág.126 a 129.

                                                                                    
 

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Uma história para o dia da criança :)


As aventuras de Pinóquio, a história de Carlo Collodi, com belíssimas ilustrações de Roberto Innocenti.
Da Kalandraka :)

                                                                        

 
 

domingo, 31 de maio de 2015

Novo espaço "Waffles Shop"


Abriu hoje um novo espaço, aqui na vizinhança.
Fui lá tomar café.
Tive vontade de fazer aqui publicidade, porque admiro a vontade dos jovens que tentam fazer pela vida, que tentam permanecer no país que tão ingratamente os trata.

É um espaço leve e simpático e espero que vingue, tenha sucesso.
Boa sorte para os jovens que o abriram:)

Fica perto da Escola Superior de Educação, em frente à farmácia.