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quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

"Da Palavra, o Fruto"

 "Da Palavra, o Fruto" é uma antologia de prosa de António Salvado, que vai ser apresentada a 5 de Março (na próxima terça-feira) às 18:00, na Biblioteca Municipal

                                                                        







Retirado do semanário regionalista da Beira Baixa "Reconquista" pág.11, 
Edição 4068/29 de fevereiro

domingo, 5 de março de 2023

In Memoriam


OUTONO NO JARDIM

Tomba a primeira folha como vida

que o tempo, irmão solícito, renova...

Cai pelo chão a hora povoada,

futura embora, som de fonte nova,

tristeza que a alegria perseguida

mata nos galhos, tão solicitada...

Perfeita comunhão de luz aberta

à outra comunhão, até ao fim

dos anos que são tempo e confiança

nesta existência de fadiga certa!


- Tomba a primeira folha no jardim

e em cada queda um coração descansa!...


Difícil Passagem, pág.34

António Salvado (1936-2023)


sábado, 28 de janeiro de 2023

A Poesia

 

A POESIA

Difícil, estreita passagem,

força quente perscrutada,

corpo de névoa, de imagem,

com sulcos de tatuagem,

voz absoluta escutada...


Destino de aranha, tece

com fios vários da vida,

alegria se amanhece

ou chora se a luz fenece

pela noite perseguida.


Intimidade exterior,

pureza de impuras formas,

conhecimento e amor,

água límpida, estertor,

sem regras feita de normas.


António Salvado, Difícil Passagem

                                                                       


         

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Para o novo ano...


MENSAGEM

E eis a chave. Ela abre
todas as portas fechadas:

O MUNDO É REDONDO E CABE
NUM ABRAÇO APERTADO!


António Salvado


Saudações de Natal


À força de s'erguer uma esperança
que nos conduza a fé bem mais além,
sonhamos que nasceu certa Criança
Divina lá p'ròs lados de Belém.

A Criança renasce em cada ano
trazendo fim às nossas incertezas,
guiada por serena e alta estrela
cuja luz nos apaga desenganos.

Das ilusões alvoram amizades
de solidárias mãos que mais se apertam...
Sua missão de sempre? foi só esta:
dizer-nos que o amor a nosso lado
aguarda apenas um sorriso, um gesto.

António Salvado, Poemas de Natal, pág.10


quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Saudando a Vida!


                                                                         
A Flor

Eu queria uma flor
disse a criança
e a manhã ofereceu-lhe o regaço,
uma flor encarnada
e em vez de pétalas asas,
disse a criança a medo,
quase envergonhada,
como se voar fosse um pecado
e como se um cálice
pudesse ser também um abraço,
um pássaro ou uma pedra preciosa.

A manhã complacente,
para agradar à criança,
com o orvalho e a luz nascente
desenhou no céu uma rosa.

Joana Lapa

Incluído em "Um Extenso Continente, Antologia de homenagem a António Salvado"
Organização de Maria do Sameiro Barroso, Maria de Lurdes Gouveia Barata e Alfredo Pérez Alencart
Pág.152

RVJ, Editores, Junho 2014

                                                                                       


quarta-feira, 10 de junho de 2015

Serenidade

«Branda Companheira»

Branda companheira: serenidade,
leda ventura a ser no pensamento
feliz e ao mesmo tempo o adoçar
compassado: nem fugidio ou lento

da placidez. Outro bem fulgirá
maior e mais belo que aquele ameno
e sem sobressaltos encaminhar
para selar fortuna há tanto tempo

esperada? Ainda que alguns presságios
nos atropelem todos os sentidos,
uma nesga de azul p'lo ar avança

e mais alargando, em profundidade,
a sua cor pertinente, incisiva.
E em nosso peito que ternura anda?

António Salvado,
No Interior da Página
seguido de
Prosas Avulsas do Interregno, pág.16


                                                                          
 
Myra Landau
 
 

sábado, 21 de março de 2015

Esperado retorno...



Primavera

Das flor's primeiras o perfume aspiro...
É Primavera, dizem! Derradeira,
a chuva molha ainda o ar...
                                           Mas tiro
de sobre mim a solidão: e inteira
renasce a luz!

                      Um pássaro atravessa
o céu do nosso espírito a cantar...
E eis a primeira rosa, a única promessa
que nos abriu os olhos e nos fez olhar!

António Salvado
Jardim do Paço, pág.21

                                                                      
 
 
 

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Verão... no Outono

Verão

As bagas de suor são o caminho andado!
E falta ainda tanto percorrer...
O nosso olhar parado
recusa-se, distante, a perscrutar e ver!...

Mas eis que sobre essa indolência informe,
sobre esse alheamento e solidão,
passa veloz uma formiga - enorme
na sua sombra - transportando um grão!

António Salvado
Jardim do Paço, pág.13

                                                                                  
 
 

sábado, 6 de setembro de 2014

Do Coração...


Do Coração...

Do coração não vou falar-te, pois:
por esta rua passam horas idas
com negrura nos olhos do que viram
e souberam guardar: falso tesouro.

Dizem que é órgão tão sujeito à morte
que sem compasso quanta vez lateja:
a presença teimosa que lanceia,
mas falar dele   para quê    não posso.

O que entre nós alimentou a vida
e coloriu meu sangue de aventura
é segredo que nada acordará -

e falar dele    falta-lhe ousadia:
ambos sofremos a nudez da luz
que se brilhou    também soube ocultar-se.

António Salvado, Sinais do Fluir, pág.15

                                                                              
 
Rochedos à beira-mar
Paul Gauguin
 

domingo, 20 de abril de 2014

Serenidade


 Amanhecer em Toral de Los Gusmanes

Meu coração angustiado cessa
de me doer, quando no alto imenso
o chilreio dos pássaros começa
a despertar a minha fé serena.

E cruzando o azul, meus olhos sentem
que essas aves cantando manifestam
um recôndito amor, fértil, secreto,
que até elas acorre lentamente.

A madrugada banha a minha face
roseada com gotas do orvalho
caído como júbilo do céu.

De mãos erguidas ou em cruz no peito
acompanho feliz esses gorjeios,
pois também eles são a voz de Deus.


António Salvado, Na Sua Mão Direita, pág.9
Sirgo

                                                                                 
 
Jesus, O Mestre

Última Ceia

 
Crucificação de Cristo

 
Ressurreição
 
 

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Anoitecer

                      
  «O SOL DEIXOU-ME»

O Sol deixou-me...
É a hora perturbadora e dolorosa
do anoitecer.
As nuvens azuis e cor-de-rosa
desapareceram.
E a escuridão que se aproxima
faz-me sentir ainda mais
que sou sozinha.

Os passarinhos já adormeceram.
O vento transformou-se em brisa
para que nenhuma árvore estremeça
e não sacuda os ninhos.

A noite, as rosas levemente pisa.
Espalham-se aromas pelo ar.
As pombas recolhem aos pombais.
As crianças, nos braços das mães,
esfregam os olhos com sono.
Nos lares unidos, há beijos mais amigos.
Fecham-se as janelas uma a uma.

A minha alma pela mais cinzenta estrada
caminha,
sentindo do Sol o abandono.


Merícia de Lemos, pág.194,Antologia da Poesia Feminina Portuguesa
Organizada por António Salvado

                                                         
 
 

sábado, 1 de março de 2014

Ecos


Do mais recente livro (belíssimo)  de António Salvado, Ecos do Trajecto seguido de Passo a Passo


37.

Difícil reter as lágrimas -
mas prossegue, solitário,
na sua barca balouçante,
entre céu e terra, mudo
de parentes e amigos,
sem abraço de despedida,
aguardando que não se agitem
mais as águas da corrente,
que das margens alguma
sombra cubra o sol agressivo,
porque a esperança é alcançar
lá mais para a frente
um campo livre de secura
e plantar nele o louro trigo
do seu renascido trajecto.

Pág.20


                                                                            


domingo, 2 de fevereiro de 2014

Além


Como enorme vasilha, céus floridos,
as estrelas são lírios infinitos.

António Salvado, Interior à Luz, pág.8


sábado, 28 de setembro de 2013

"O Tempo a envelhecer!"


O Cinzento Teimoso...

O cinzento teimoso ensombra a dia.
O sol recusa aparecer, distante,
seus raios dormem como se a manhã
não tivesse acordado. O dia gris,

e difícil será dizer-se quando
sem luz irá mudar o colorido.
Há quanto esta mordaz monotonia
pela minh'alma inteira me acompanha.

Sombras e sombras, brumas desenhando
a solidão completa e depois tanto
que outro assombro pior me rói o espírito.

Meu Deus, dai-me um amparo, mesmo lene.
Julgando embora como tudo é breve,
não me deixes por hoje sucumbir.


António Salvado, Sonetos do Interregno, pág.48
Fólio Exemplar


 
 
 
Obs.  O Outono é o tempo a envelhecer é o título de um pequeno e precioso livro de Maria Isabel César Anjo, com ilustrações de Maria Keil
                                                                             

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

À espera que me digas...


À espera que me digas como ornar-te
com palavras singelas, folha branca,
vou olhando pessoas a passar
apressadas - será longe a distância

do seu destino. Aqui, ao lado, as árvores
cheias de verde e sol julgo que cantam
de alegria por verem que nos bancos
debaixo delas vibram namorados.

E um céu azul, de pássaros orquestra
com seus trinados vários que enlouquecem
de prazer os ouvidos de quem vê,

e tal como eu que à espera continuo
nesta manhã tão límpida que tu
me digas, folha branca, que fazer.


António Salvado, Sonetos do Interregno, pág.18
Fólio Exemplar

                                                                              

domingo, 14 de julho de 2013

Nunca o amor é débil...


Nunca o amor é débil quando a chama
que o alimenta fulge apaixonada
com faúlhas ardentes que o amparam
e o mantêm fiéis acarinhando-o.

Como um sonho tornado verdadeiro
dissipará abismos nevoados
após vacilações mas que desfeitas
e sem razão de ser são quase nada.

Quando o medo funesto o atormenta,
o atormentou com incisivo gume
a penetrar até cavado fundo,

ressuscita animoso e complacente
porque à fraqueza entrega novo sangue
que posto a circular mais o inflama.


António Salvado
Repor a luz, pág.58
FólioExemplar

                                                                                    
 
 

sábado, 30 de março de 2013

Oração


 DESFAZ, SENHOR

Desfaz, Senhor esta vivaz angústia
que me comprime o coração dorido -

e nada mais Te rogo, no crepúsculo
que vai aproximando a noite à minha vida.


António Salvado, Na Sua Mão Direita, pág.13
Edições: Sirgo


                                                                          
 
 
The Light of the World, 1853
William Holman Hunt
 

sexta-feira, 29 de março de 2013

Tempo de Páscoa - II


IV
Feliz, Senhor, aquele que em ti crê,
pois nessa crença pode repousar
e olhar a vida sem temor ou medo,
fitar os outros como seus iguais,

podendo em Ti suavizar a sede
de mais-além, e a fome saciar
de um dia a Ti se unir - ultrapassadas
as mágoas deste mundo e os pesadelos.

Ele sabe, Senhor, que a sua entrega
à tua divindade é como prémio
à conseguida e permanente fé.

E saberá, Senhor, que não T'escondes:
que em cada instante o vês e que o encontras
convertendo-o n'aquilo que Tu és.


António Salvado, Na Sua Mão Direita, pág.44
Edições: Sirgo



                                                                                

sábado, 2 de março de 2013

Recordações (II)


O ECO

Ah, se me lembro bem daqueles dias
       tão doces de passar!
E do sino, tocando Ave-Marias,
e do cheiro das flores do pomar...

Havia ao longe um eco, a que eu falava
em todo o ardor do meu ingénuo afã;
       e a quanto eu perguntava,
como era a minha Esperança que escutava,
o eco respondia-me: -
                                    - amanhã...

Há tempos, (e em que tarde encantadora!)
voltei de novo à quinta de meus pais:
Fui ao eco falar, como ia outrora...
       - Mas que saudade agora!... -
E o eco respondeu-me:
                                     - nunca mais...


Branca de Gonta Colaço

Retirado da
Antologia da Poesia Feminina Portuguesa, pág.152
António Salvado
Edições JF